Resenharia


Army Navy by ricardogruner

armynavy1

1. Dark as Days
2. My Thin Sides
3. Saints
4. Slight of Hand
5. Unresponsive Ears
6. Snakes of Hawaii
7. Ignite
8. Pocket Boys
9. Jail Is Fine
10. In the Lime
11. Golden Pony
12. Right Back Where We Started From

O Army Navy é daquelas bandas para todas as idades, para todos os locais e para todos os momentos. No Myspace, a descrição de seu som é curiosa, mas não diz muita coisa Indie / Chinese pop / Happy Hardcore. Na prática, seu autointitulado álbum de estreia traz o powerpop por excelência, nos mesmos moldes que Teenage Fanclub fazia nos anos 90: distorções leves, arranjos de guitarra bem trabalhados em cima de acordes abertos e simples e melodias vocais alegres com apoio de muitos backing vocals.

A fórmula é batida, mas a maneira como este quarteto de Los Angeles entoa as 12 canções do disco contagia. Até mesmo Ignite, a mais pacata do compacto, deixa qualquer um que possua o mínimo de interesse por música pop batendo o pé no chão e balançando a cabeça. A voz aguda do vocalista Justin Kennedy funciona como um complemento aos riffs e dedilhados de guitarra e vice-versa, e ambos são carregados pela levada hora continua, hora variada do baterista Doug Randal.

Mas se a música do Army Navy é animada e dançante, as letras são um caso totalmente diferente. Chega a soar estranho ouvir exclamações como “What a miserable life!”, em Jail is Fine, para segundos depois se deparar com uma parede de guitarras que, se tivesse cor, seria totalmente colorida. E se falta otimismo no que Kennedy escreve, sobra sinceridade, ou ao menos é que o compositor faz transparecer. Em My Thin Sides, a música de trabalho do grupo – que conta com um tragicômico videoclipe -, ele parece cantar conformado as ambiguidades do amor. “Come to see me as I’m always wrong / I will leave you and delete your songs / You’ll always be the one that wakes my tired eyes / Always be the one I shy away”.

A produção é de Adam Lasus, que já assinou discos do Clap Your Hands Say Yeah e Yo La Tengo, e não deixa a desejar. Antenado ao propósito da banda, deixou as vozes em um plano bem mais destacado que os instrumentos, e o resultado permite que até o menos fluente no inglês entenda as frases recheadas de simplicidade que Kennedy dispara ao longo do disco.

Neste mesmo espírito, Right Back Where We Started From fecha a sequência que não decepciona da primeira à décima segunda canção. Trata-se de uma versão para um clássico da disco-music dos anos 70, de Maxine Nightingale. Mais rockeira que a original e sem outras grandes mudanças, uma escolha pertinente.

Entretanto, o grande destaque vai mesmo para “Saints”, exemplo de música pop perfeita, com guitarras inspiradíssimas e um refrão para animar qualquer pista de dança, que termina categórico: “Believe me when I call and I say / The next girl that I love won’t be a saint / Now go away /”. Nada excepcionalmente novo, mas uma excelente celebração ao powerpop.

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Only by the Night by guilhermed
outubro 8, 2008, 2:44 am
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01. Closer

02. Crawl

03. Sex on Fire

04. Use Somebody

05. Manhatan

06. Revelry

07. 17

08. Notion

09. I Want You

10. Be Somebody

11. Cold Desert

 

 

 

Quando a organização do Glastonbury anunciou que o Kings of Leon seriam headline da edição 2008, a imprensa inglesa especializada em música anunciou logo de cara: seria A Grande Chance dos irmãos (e do primo) Followill.

            Seria a chance do grupo finalmente se tornar uma das grandes bandas do planeta, já que, até aquele momento, e devido ao rótulo de “Strokes caipiras”, tanto imprensa quanto grande parte do público ligado em rock viam KOL como uma banda boa, mas limitada. E eles conseguiram se tornar essa grande banda. No álbum Because of the Times.

            Bom, essa é uma resenha sobre o Only by the Night, mas é crucial falar dos outros álbuns para entender o que está se falando dessa obra mais recente. O penúltimo álbum (BOTT) é que foi o grande responsável pela expansão da banda, pois levou os “caipiras americanos” ao topo das paradas britânicas, além de mostrar um rock mais complexo e original. As músicas realmente eram “maiores”, possuíam uma sonoridade mais evoluída. No entanto, os créditos para o amadurecimento da banda tem ido para o último disco do grupo, o que é um equívoco.

O Only by the Night realmente veio para consolidar o Kings of Leon como uma das grandes bandas da atualidade, pois reafirma diversas virtudes: a banda continua amadurecendo em alguns aspectos, o que se pode notar em músicas mais ricas e bem arranjadas, além da voz de Caleb soar mais clara e melódica. Os arranjos também são mais complexos.

 No entanto, o OBTN, repleto de baladas, em nada lembra os tempos de Youth and Young Manhood, que mostraram KOL para o mundo como uma banda que fazia rock como ninguém. Os “strokes caipiras” eram na verdade muito mais que isso. O rock do primeiro e do segundo disco já mostravam uma banda fora de série. Por exemplo, muito se houve falar do “amadurecimento” da banda, mas poucas músicas são mais maduras do que Trani, faixa do primeiro álbum da banda. Trani é uma música com maturidade na letra e na melodia, e não é a toa que Bob Dylan disse “that’s a hell of a song”.

 

 

No segundo álbum, Aha Shake Heartbreak, já vemos a banda saindo um pouco do estigma de caipiras, mas continuam com a mesma qualidade e pegada, além do crescente entrosamento da banda e domínio de cada membro sobre seus instrumentos. Slow night, so long, faixa de abertura é o resultado de tudo isso.

Enfim, o Because of the Times. O álbum que levou o KOL ao topo das paradas britânicas e simbolizou uma nova banda. Era um rompimento com os primeiros CDs, devido à sonoridade. Charmer, On call, McFearless e outras faixas evidenciavam novas influências e uma expansão de horizontes, o que resultava em uma banda mais original e com mais potencial. Não é a toa que foi um grande sucesso de crítica e público.

E então, os caras barbudos de Nashville chegaram à Glastonbury. Praticamente ignorando o trabalho mais recente do grupo, a imprensa declarou que aquela era a chance deles se tornarem grandes. O resultado foi além do esperado: o show foi incrível, e, para aproveitar a onda, a banda lançou prematuramente seu quarto álbum, o Only by the Night. O disco dominou as paradas, tanto de singles, como de álbuns e de downloads.

 

 

 

O que acontece é que, ao contrário dos outros discos da banda, o OBTN não agrada em sua totalidade. O disco é de fato bom, tem o hit Sex on Fire, tem baladas pop, tem a música experimental Closer, que é maravilhosa. Mas falta alguma coisa. O disco já não é tão original e mostra uma banda mais acomodada. Use somebody deveria ter sido feita pelo U2, ou alguma banda mais pop ainda, e não pelos caipiras de Nashville. Notion é uma excelente música, mas no início temos certeza de que se trata de uma faixa do The Killers, e por aí vai. Em suas baladas, o álbum cai na mesmice.

Seria cruel dizer que esse é o pior álbum do grupo, até porque se trata de um grande disco, mas é verdade que os três primeiros discos são melhores. O que se vê é uma excelente banda, mas que tomou um rumo que parece já ter sido trilhado por outros grupos, enquanto o álbum anterior, o Because of the Times, mostrava uma sonoridade única e um caminho mais promissor.

 



SOUTHLAND TALES – O FIM DO MUNDO by ricardogruner
setembro 29, 2008, 7:34 pm
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Southland Tales – O Fim do Mundo

Direção: Richard Kelly

Roteiro: Richard Kelly

Gênero: Comédia/Drama/Ficção Científica

Duração: 144 minutos

Trailer:

Southland Tales é o segundo filme que Richard Kelly, responsável pelo cult Donnie Darko, dirige. Em Cannes, foi muito mais vaiado que aplaudido, e a Sony impôs que o longa tivesse sua duração diminuída. Faz sentido: o filme, que possui mais de duas horas (mesmo após a edição), apresenta uma trama complicada que se desenvolve lentamente e acaba sendo um teste à paciência do espectador. Apenas depois de uma hora os fatos começam a ser mais dinâmicos e as relações entre os inúmeros personagens um pouco claras.

Em 2005 um ataque nuclear destrói parte do Texas e o governo americano passa a intervir na liberdade da população. Três anos depois, Boxer Santaros (The Rock), um famoso ator ligado ao partido republicano, é encontrado no deserto sem memória. Ele passa a viver com a ex-atriz pornô Krysta Now (Sarah Michelle Gellar), com quem escreve um roteiro que revela o que acontecerá na realidade futura. Enquanto isso, um grupo revolucionário “neomarxista” tenta acabar com a ditadura através de métodos violentos, e um policial (Seann William Scott) se envolve em uma grande conspiração. Cabe a Abilene (Justin Timberlake), um veterano da guerra do Iraque, narrar de uma perspectiva distante este iminente fim do mundo.

Trata-se, em resumo, de uma crítica aos Estados Unidos pós 11 de setembro em um roteiro totalmente ambicioso e não-funcional. Belicismo e totalitarismo são tratados de forma satírica e jogados no liquidificador junto à indústria pornográfica, viagens no tempo, outras dimensões (lembrou Donnie Darko?), teoria da conspiração, crime e castigo, algumas boas sacadas e uma trilha sonora excelente. O resultado não poderia ser outro: seqüências que hora causam estranhamento, hora irritação, e que, em alguns raros momentos, trazem tomadas surreais que chegam a lembrar David Lynch.

Assim como em seu filme anterior, Kelly utiliza a música como complemento aos diferentes climas vividos no filme, e é justamente quando isso acontece que Southland Tales traz lampejos de genialidade. Justin Timberlake chapado cantando The Killers é algo que vale a pena assistir. Radiohead e Pixies também figuram na trilha, o maior acerto do trabalho.

O elenco duvidoso até surpreende. Os personagens demonstram saber que há algo muito errado nas situações que vivem, e isso acaba sendo muito mais cômico do que as piadas sexuais que têm tanto destaque. Entretanto, a impressão final é mesmo de que a pretensão de fazer uma obra grandiosa subiu a cabeça do diretor, que se perdeu ao tentar reunir todas as idéias que teve. A enorme quantidade de informações confunde e esconde a crítica proposta, e ela passa a ser apenas um pano de fundo para as loucuras bipolares de um megalomaníaco.



The Verve – Forth (2008) by ricardogruner


01. Sit And Wonder
02. Love Is Noise
03. Rather Be
04. Judas
05. Numbness
06. I See Houses
07. Noise Epic
08. Valium Skies
09. Columbo
10. Appalachian Springs

“Love is noise / Love is pain / Love is this blues that I’m singing again”

Uma década se passou desde que o The Verve viveu seu auge e sua queda: Urban Hymns (97) é um dos maiores e mais significativos álbuns do chamado britpop. Foi ele quem elevou os músicos de Wigan ao estrelato definitivo, conquistando a Europa com os singles Lucky Man e The Drugs Don’t Work, e ganhando os ouvidos do mundo inteiro com a já clássica Bittersweet Symphony. Mas se foi este o momento em que a psicodelia e o pop melhor se encontraram através do vocalista Richard Ashcroft e dos barulhos arranjos do guitarrista Nick McCabe, o álbum também culminou com o fim da banda, desgastada por brigas internas em meio ao sucesso.

O aguardado Forth, nas lojas desde o mês passado, é seu primeiro trabalho desde então. Não se trata exatamente de uma novidade, mas sim de uma afirmação. O The Verve repete a fórmula que deu certo nos anos 90, dosando com precisão cirúrgica loucura com sanidade e trazendo a melancolia como um elemento essencial a essa composição. A esquizofrenia da guitarra de McCabe – grande responsável por trás da atmosférica dramática que envolve as 10 faixas do lançamento – parece completar cada frase desanimada que Ashcroft canta, enquanto baixo e bateria retratam o contexto triste em que os dois estão inseridos. Mas é uma tristeza bonita e ocasional, como o restante da discografia dos ingleses, que nunca gravaram um CD para ser escutado em comemorações ou eventos. E, onze anos após Urban Hymns, a cena se repete: o ouvinte está sozinho no quarto, cantarolando baixinho o barulho e a dor outra vez.

Love is Noise, primeiro single de Forth, é o momento em que o panorama muda um pouco. Com uma levada mais rápida, a música apresenta uma outra abordagem a esse cenário, trazendo um questionamento em relação à vida no mundo contemporâneo. Funciona, e funciona muito bem. Love is Noise está há semanas nas primeiras colocações das paradas britânicas e foi um dos grandes destaques no show da banda no Glastonbury, apenas uma semana após o single ter começado a tocar nas rádios.

Embora as características sejam basicamente as mesmas durante todo álbum, este está longe de ser repetitivo. Os detalhes nos arranjos aparecem em maior ou menor quantidade, dependendo da tensão existente em cada uma das músicas, fator que determina também o destaque para os instrumentos. Ao longo dos 8 minutos de “Noise Epic”, por exemplo, a técnica de cada um dos membros é ressaltada de acordo com o andamento da melodia, que ganha diferentes climas até chegar no trecho mais surreal do disco, onde a apoteose instrumental só termina com a súplica “wake up, wake up, wake up!”

Já “Valium Skies” segue um padrão mais convencional, com a guitarra menos poluída e o refrão radiofônico. O objetivo é atingido com êxito, lembrando as baladas mais populares da banda. Outra faixa que deve ser mencionada é “Sit and Wonder”. Na letra, um desolado Richard Ashcroft pede que seu caminho seja iluminado enquanto o restante do Verve se encarrega de proporcionar a mesma sensação a quem os escuta, que tende a sentir um deslocamento, seja físico, sentimental ou racional.

Por mais que a banda já tenha entrado para a história por seus outros trabalhos, Forth tem seu valor significativo para a música. É representativo quanto ao “modelo The Verve” de compor, mostrando a originalidade e fidelidade do som do grupo – que não é fácil de ser digerida. E, mais que isso, prova que uma década depois, totalmente deslocados das tendências do rock dos anos dois mil, o quarteto formado em Wigan ainda soa atual e tem qualidade a oferecer.